segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Ás vezes eu queria simplesmente sentir
Abaixar o escudo e deixar a melancolia fazer seu trabalho
Acordar devagar
Abrir os olhos mais vezes que o normal
Deixar uma ou duas lágrimas no travesseiro
Sentir o cheiro de café fresco
Beber mais lentamente do que acordei
Esperando que o calor emanando da caneca
Faça um percurso reverso e entre em mim
Pegar um livro e não ler
Ligar a televisão e não assistir nada
Uma caneta e um caderno e deixar a página em branco
Melancolia tem seus momentos
Alguns dias, ela simplesmente me inspira a suspirar palavras
Outros, ela retém até meu oxigênio
Vinte e quatro horas
Quarenta e oito
Uma semana
Quem sabe ela seja tão usada que enfim
Decida me deixar em paz
Parta para outro corpo, outro estilhaço
Fique cansada do meu sistema
Talvez, se eu a sentir
Sentir muito e bastante
Ela se canse
E me deixe
Cansada.


Thais T.

domingo, 28 de setembro de 2014

Não tão Bela, um pouco Adormecida

Quando criança, aprendi a acreditar na fantasia. Desde sempre um pouco bipolar, admito. Queria ser tão bonita quanto a Cinderela e, ao mesmo tempo, embora ser uma princesa parecesse um plano infalível, lutar como a Mulan também estava na minha lista de prioridades.

Quando adulta, aprendi que a fantasia serviu seu propósito de alimentar minha imaginação, mas agora era hora de crescer. Guardar o livro de contos de fadas e esquecer que um dia eu sonhei.

Algo certamente deu errado.

Por mais que sim, chorasse com o Bambi e suspirasse com o beijo de amor eterno, eu queria ser médica.
Hoje, não sou médica. Mas queria voltar a ser princesa. Não sua versão Disney, obrigada. Percebi que por mais perfeitos fossem os vestidos, sem dúvida eram desconfortáveis.

Embora entendesse os contos quando criança, notei que como adulta, compreendo em formas que antes não foi possível. Recentemente, assisti os primeiros episódios de uma série chamada Once Upon a Time, totalmente relacionada aos personagens dos nossos livros infantis. E em uma das cenas, o grilo falante em forma humana explicou que relacionar pessoas reais aos contos é a linguagem singular de uma criança, sua forma de lidar com emoções complexas. Bem, eu achei genial.

Peter Pan tinha medo de crescer. Hoje entendo que não existia garoto mais esperto que ele. O que há de bom em crescer? Por que não morar para sempre na Terra do Nunca? Por que não desejar aventuras sem fim com o Capitão Gancho? Espera. Por que eu não consigo voar? Pensamentos positivos, pensamentos positivos, Peter Pan me diz enquanto joga mais pó mágico. Nem um centímetro acima. Sem pensamentos positivos, eu já cresci.

Chapeuzinho vermelho era uma rebelde por natureza. Disse “sim” à ordem da mãe, mas bastou uma pequena distração e já estava em seu próprio caminho. O mais perigoso, é verdade. Encontrou um estranho e conversou com ele, outra desobediência. E coincidentemente, o mesmo desconhecido era o temido lobo mau, cujos dentes afiados atacaram sua avó. Chapeuzinho jamais deixaria isso acontecer. Inconsequente, tomou riscos e aprendeu lições, colocou pessoas que ama em perigo e as salvou. Afinal, não é isso que significa amadurecer?

Tiana, a primeira princesa negra. Na famosa cidade de New Orleans, ela se mostrou parte Cinderela enquanto trabalhava arduamente servindo os típicos e meus sonhos de consumo Beignets. Com café, por favor. Ela também foi parte Ratatouille (além da culinária), se transformou em um animal que as pessoas não costumam sentir muita empatia e ainda assim conquistou o público. Mas ela foi, acima de tudo, forte. Admiradora do pai, manteve-se firme aos seus valores e não cedeu ao Dr. Facilier, um feiticeiro bem bizarro, quando ele tentou lhe seduzir com a realização de seu maior sonho em troca do talismã. Ela disse não e, com a ajuda dos amigos, construiu seu restaurante com as próprias mãos. Tiana quer tirar da mente das meninas que esperar na sacada realizará desejos, não adianta o vestido mais bonito se não houver determinação. Tanto para aceitar o trabalho e as unhas quebradas, quanto para negar os atalhos que agora parecem tentadores, mas depois voltam para assombrar.

Frozen e Malévola são as mostras claras de que príncipes são bem vindos, mas não necessários. Romance, é verdade, embeleza uma história. Independente do ceticismo, um beijo romântico sempre arrecada suspiros. Contudo, finais felizes não dependem deles. Se é amor verdadeiro, por que não família? Namorados vêm e vão, irmãs permanecem até quando você não acorda com os pássaros cantando e o cabelo perfeito. Como a Anna, meu sono é precioso, acordar de madrugada unicamente para brincar na neve com minha irmã super poderosa.


Talvez, quando criança eu não tivesse entendido tudo o que hoje compreendo. Contos de fadas são sim infantis, mas não menos verdadeiros. Sou adulta hoje, embora ainda expresse meus complexos sentimentos através de personagens. Não mais lobos maus e princesas, infelizmente. Crio meus próprios vilões e mocinhas, menos bem vestidas e mais Meridas e Tianas, um pouco angustiadas como a Elsa, um pouco apreciadoras de bibliotecas como a Bela, um pouco perdidas como a Ariel, um pouco insanas como a Alice. É hora de crescer sim, mas ser “grande demais” não é desculpa para se contentar com realidades pequenas.  


Thais T.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Mochila vazia

Derramei café no meu mapa
A bússola desmagnetizou
O ponteiro entrou em sintonia com a minha mente
O norte perdeu o sul
O leste desconhece o oeste
O que é uma rosa dos ventos?
Ventos não sopram a direção certa
E perdi as rosas de vista
A mancha espalhou nas linhas
Os caminhos desmancharam nas mãos
O café derreteu os planos
Porque estava quente demais para ser consumido
Porque o mapa repousava no lugar errado
O lado incorreto da mesa
Fora de alcance
Não adiantava tentar mantê-lo límpido
Tarde demais para secar
Joguei o mapa fora
Destruí a bússola desmagnetizada
Salvei o ponteiro e guardei no bolso
Ele gira sem planos
Ele lembra o caos residente
Esvaziei a mochila
Não preciso dos livros pesando a alma
Não quero a caneta de tinta escura
Peguei a mochila vazia
Coloquei nesses ombros tortos
E esperei o próximo trem
Amanhã você verá meus versos na areia da praia
desenhados com um galho quebrado
Depois vai encontrar meus silêncios na parede branca
tingidos com uma pedra solitária
Meu mapa está despedaçado
Cada rota nas palavras escritas sem caneta
Nas páginas que o errôneo ventou levou.


Thais T.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Se arte fosse uma pessoa.

Eu me apaixonaria devagar, com olhares fugazes percorrendo os detalhes.

Se as pinturas fossem uma pessoa, eu admiraria as cores como se estivesse fitando o interior dos seus olhos de tom excepcional. Tocaria os relevos suaves de tinta como se estivesse entrelaçando meus dedos em seus cabelos, envolvendo minha mão na maciez. Tentaria desvendar o mistério por trás das pinceladas como sempre faria com você, procurando em seu rosto algum resquício da alma que diz não ter mais.

Se teatro fosse uma pessoa, eu admiraria os cenários como se estivesse nos lugares do mundo que exploraríamos juntos, satisfazendo a sede de viagem com minha cabeça recostada em seu ombro. Eu aplaudiria a peça de pé como se fosse seu sorriso despretensioso pela conquista que acabou de alcançar, orgulho de ter presenciado esse momento enquanto sorrio com você. Observaria a interação dos atores como faria se você me tocasse, sem voz e sem luz, sua pele quente roçando contra a minha fria.

Se os desenhos fossem uma pessoa, eu suspiraria de surpresa com a veracidade como faria se você me beijasse de repente, um colar de lábios rápido e com sabor de sorriso pausado. Analisaria com atenção os traços tão bem delineados como se estivesse assistindo seu sono pacífico, a constante de uma expressão quando normalmente me deparo com milhares durante o dia. Sentiria o cheiro de papel e grafite como se repousasse meu nariz em seu pescoço, absorvendo o aroma que trouxe contigo.

Se os filmes fossem uma pessoa, eu sentaria na sala de cinema por horas como se fosse você ao meu lado, compartilhando o silêncio que ambos necessitamos e que só você entenderia. Enxugaria as lágrimas que escaparam na cena dramática como se estivesse lamentando assistir você saindo pela mesma porta que entrou ontem, meu orgulho me impedindo de trancar a fechadura e esconder a chave onde nem você poderia achar. Prenderia a respiração a cada diálogo fascinante como se fosse você me sussurrando palavras que se apertavam no mínimo espaço entre o meu corpo e o seu.


Se arte fosse uma pessoa, eu teria cuidado ao seu redor. Me afastaria sutilmente quando você tentasse me tocar, temendo o momento que você percebesse o poder que tem sobre mim. Eu te assistiria e te elogiaria quando você merecesse minhas palavras. Eu também permaneceria silenciosa, não vendo necessidade de som quando sua expressão fosse capaz de gritar até os ecos. Se arte fosse uma pessoa, eu lutaria contra, mas não haveria saída. Você me fascinaria ao ponto de me fazer perder a cabeça. Você seria meu maior mistério e, então, eu passaria o resto da vida tentando te desvendar. Eu seria possessiva sobre sua autoria, territorial quando outra admiradora viesse te contemplar. Resistiria ao anseio de te cobrir com um pano, de fechar as cortinas, de desligar o projetor no cinema, de te guardar em uma gaveta. Mas eu jamais faria isso. Porque tão expressivo como você, atrair olhares é natural como respirar. Se arte fosse uma pessoa, eu estaria perdida. Entregaria meus pincéis para você traçar meu futuro ao seu bel prazer, cederia minhas tintas e meus roteiros às suas mãos que sempre teriam um lado oculto. Sim, como a lua. Se arte fosse uma pessoa, você teria tudo que um dia pertenceu a mim. Devagar, você tomaria aquilo que afirma que seu corpo não mais possui, embora quebrada, você se contentaria com minha alma. 

Thais T.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Olhe.

Olhe ao redor. Olhe atentamente.

O que você vê?

Vejo olhos amadurecendo.
Vejo livros em transição.
Vejo uniformes relegados.
Vejo novas rotinas.
Vejo liberdades adquiridas.

Mas evito olhar no espelho, temerosa do que possa aparecer. Reflexos são inversos, contudo, não menos reais. São as brutas palavras de que você foge, os olhares de dúvida. De si. Do que. De onde.

Olhar ao redor requer esforço, exige submergir do seu universo particular para entrar na realidade. Olhar no espelho demanda coragem, estar disposto a entender que as pequenas rachaduras no reflexo não são defeitos da superfície, mas falhas suas. Bem no canto, uma fratura sobre o olho. Resultado das lágrimas derramadas por aquele fracasso. Na parte inferior, uma trinca na perna. Sequela das raízes venenosas que não lhe deixam sair do lugar. No topo, uma fenda nos lábios. Fruto do silêncio corrosivo que você guardou para si; do grito revoltoso trancado à chave enferrujada. Passando a vista pelo espelho inteiro, a percepção da quantidade de rachaduras faz a coragem cambalear. O esforço de manter a cabeça acima do nível das águas de retraimento começa a desaparecer.

Olhe ao redor.
Olhe no espelho.

O que você vê?


Fraturas que eu não sei consertar.

Thais T.