sexta-feira, 30 de maio de 2014

Se arte fosse uma pessoa.

Eu me apaixonaria devagar, com olhares fugazes percorrendo os detalhes.

Se as pinturas fossem uma pessoa, eu admiraria as cores como se estivesse fitando o interior dos seus olhos de tom excepcional. Tocaria os relevos suaves de tinta como se estivesse entrelaçando meus dedos em seus cabelos, envolvendo minha mão na maciez. Tentaria desvendar o mistério por trás das pinceladas como sempre faria com você, procurando em seu rosto algum resquício da alma que diz não ter mais.

Se teatro fosse uma pessoa, eu admiraria os cenários como se estivesse nos lugares do mundo que exploraríamos juntos, satisfazendo a sede de viagem com minha cabeça recostada em seu ombro. Eu aplaudiria a peça de pé como se fosse seu sorriso despretensioso pela conquista que acabou de alcançar, orgulho de ter presenciado esse momento enquanto sorrio com você. Observaria a interação dos atores como faria se você me tocasse, sem voz e sem luz, sua pele quente roçando contra a minha fria.

Se os desenhos fossem uma pessoa, eu suspiraria de surpresa com a veracidade como faria se você me beijasse de repente, um colar de lábios rápido e com sabor de sorriso pausado. Analisaria com atenção os traços tão bem delineados como se estivesse assistindo seu sono pacífico, a constante de uma expressão quando normalmente me deparo com milhares durante o dia. Sentiria o cheiro de papel e grafite como se repousasse meu nariz em seu pescoço, absorvendo o aroma que trouxe contigo.

Se os filmes fossem uma pessoa, eu sentaria na sala de cinema por horas como se fosse você ao meu lado, compartilhando o silêncio que ambos necessitamos e que só você entenderia. Enxugaria as lágrimas que escaparam na cena dramática como se estivesse lamentando assistir você saindo pela mesma porta que entrou ontem, meu orgulho me impedindo de trancar a fechadura e esconder a chave onde nem você poderia achar. Prenderia a respiração a cada diálogo fascinante como se fosse você me sussurrando palavras que se apertavam no mínimo espaço entre o meu corpo e o seu.


Se arte fosse uma pessoa, eu teria cuidado ao seu redor. Me afastaria sutilmente quando você tentasse me tocar, temendo o momento que você percebesse o poder que tem sobre mim. Eu te assistiria e te elogiaria quando você merecesse minhas palavras. Eu também permaneceria silenciosa, não vendo necessidade de som quando sua expressão fosse capaz de gritar até os ecos. Se arte fosse uma pessoa, eu lutaria contra, mas não haveria saída. Você me fascinaria ao ponto de me fazer perder a cabeça. Você seria meu maior mistério e, então, eu passaria o resto da vida tentando te desvendar. Eu seria possessiva sobre sua autoria, territorial quando outra admiradora viesse te contemplar. Resistiria ao anseio de te cobrir com um pano, de fechar as cortinas, de desligar o projetor no cinema, de te guardar em uma gaveta. Mas eu jamais faria isso. Porque tão expressivo como você, atrair olhares é natural como respirar. Se arte fosse uma pessoa, eu estaria perdida. Entregaria meus pincéis para você traçar meu futuro ao seu bel prazer, cederia minhas tintas e meus roteiros às suas mãos que sempre teriam um lado oculto. Sim, como a lua. Se arte fosse uma pessoa, você teria tudo que um dia pertenceu a mim. Devagar, você tomaria aquilo que afirma que seu corpo não mais possui, embora quebrada, você se contentaria com minha alma. 

Thais T.

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