quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Do verbo quebrar

Verbos do gênero feminino

Não, ela não era quebrada. Ela quebrava.


Os cabelos estavam perfeitamente domados pela tiara florida, o corpo devidamente escondido pelas roupas comuns, o rosto inocentemente límpido. Ainda não ao ponto de ser canonizada, mas progredindo para esse título, ela sorria.


Sentada em seu devido lugar, a postura correta na mesa enquanto seus pais conversavam sobre política com os convidados. Mais clichê? Impossível. Com discrição, olhou para o relógio antigo na parede, tiquetaqueando mais uma hora de sua presença no jantar. Ao lado, a esposa de um amigo de seu pai decidiu que uma conversa entre elas seria uma boa ideia. Embora as perguntas fossem entediantes, seu sorriso jamais vacilou. As respostas desenvolvidas para agradar. 

Uma hora. Boa noite, ela se retirou da mesa sob o olhar aprovador de seus pais. Hora dos adultos, eles diziam. Ela sorria, o que mais faria? Estava satisfeita que eles não soubessem o quão adulta ela já era, o quão mais experiente sobre a vida fora da redoma de ouro.
Com passos delicados, entrou no seu quarto. Retirou a tiara, as roupas, o sorriso inocente. Despiu-se da santidade, dos olhos azuis límpidos. Dobrou a pureza e a guardou no armário. O sorriso mudara, sem dúvida. Na gaveta da direita, estava o “singelo” usado no jantar. Fechada e trancada por hoje. Na esquerda, estava o “presunçoso”. Aberta e vazia quando o sorriso foi colocado.



Os cabelos estavam imperfeitamente selvagens, o corpo devidamente a mostra pelas roupas rasgadas, o rosto obscenamente incompreensível. Ainda não ao ponto de ser escandalizada, mas progredindo para esse título, ela sorria.


Sem nada a esconder, saiu pela porta da frente. Os pais e os convidados focados em demasia em sua conversa superficial para a notarem. Sem demora, acendeu um cigarro no caminho, fascinada com o exalar de sua alma pela fumaça. Bateu na porta, sendo convidada para dentro por uma garota seminua. Cumprimentou poucos amigos, rindo internamente de seus olhos vermelhos com a quantidade de droga consumida. Ela gostava de estar no comando, álcool e drogas arrancavam sua consciência e, logo, seu controle. No entanto, filha do casal que no exato segundo tomava uísque sem pausa, seu corpo aguentava mais bebida que metade dos embriagados dessa festa. Cerveja em mãos, cigarro entre os lábios. Ela dançou, os corpos suados se misturando; ela jogou strip poker, por que não?

Seis da manhã. Pessoas adormecidas distribuídas pelo chão e incontáveis garrafas em cada mobília. Ela passou pela porta da frente, o batom vermelho ainda impecável. Sóbria e consciente, olhou para trás antes de entrar no carro. Mais clichê? Impossível.

O som ressoando sua música favorita no último volume, outro cigarro sendo tragado, ela dirigiu para casa. Não a residência que seus pais possuíam, não uma festa que só sairia no dia seguinte. Não. Ela estacionou na frente de uma cabana abandonada, escondida pelas árvores da encosta. Camuflada para não ser vista, mas o suficiente para ver. Sentada na escada frontal, ela observou o nascer do sol. Ali, ela não era ninguém. Embora amasse atuar suas facetas opostas - tanto a filha obediente, quanto a garota rebelde -, elas eram exatamente isso. Papéis. Atuações. Farsas. Ser querida e comportada lhe concedia regalias e aprovação, ser impura e manchada destruía qualquer expectativa que pudessem ter sobre ela. 

Ela não era completamente sã, como seus pais acreditavam. Ela não era radicalmente insana, como seus colegas de festa pensavam. Ela não era nada. E exatamente por isso, em vez de quebrada, era ela quem quebrava. As regras, os estereótipos, a sociedade. Jogar para os dois lados, sem de fato torcer por nenhum, era sua diversão. Quebrar, contudo, era sua paixão. Solitária, como qualquer atriz permanente deve ser, permanecia inteira enquanto todos ao seu redor eram ludibriados por suas incessantes colisões. Eles não a conheciam, mas ela sabia do que era capaz. 

Thais T.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Verdade seja dita

Verdade seja dita. Ninguém tem o direito.

Quando a mulher de maquiagem pesada e pele exposta em demasia passa ao seu lado, ninguém lhe deu o direito de chamá-la por um nome depreciativo.

Obviamente, o que ocorre na sua mente, é isso. Apenas seu. Mas no momento que as palavras saem da sua boca para o ouvido de alguém, seu direito terminou.

Você poderia, talvez. Se abrisse a bolsa e, de dentro, tirasse uma pasta. Páginas e páginas a serem analisadas. A história dela. As memórias, os medos, os sonhos. Você sabia que ela sofreu abuso quando criança? Sabia que fugiu de casa? Sabia que a maquiagem não passava de uma máscara? E as roupas? Elas desviam a atenção dos demônios.

Do outro lado, um homem. Um dragão serpenteava pelo braço, uma carpa nadava na perna, uma armadura montada no ombro. Tatuagens cobriam parte do corpo visível. Um, dois, três piercings. A calça meio rasgada, a camisa de uma banda estranha. Você mexe na bolsa, mais uma pasta. Sabia que ele é um neurocirurgião? Formado com honra. Você sabia que ele namora a mesma mulher há quatro anos? Ela é uma psicóloga bem sucedida. Sabia que foi exatamente esse homem, o mesmo que você chamou de criminoso na cabeça, que lhe atendeu no consultório semana passada? São aquelas mãos tatuadas que irão operar o tumor da sua filha. Vê? O mesmo sorriso que lhe passou confiança, a mesma competência que lhe assegurou sucesso na cirurgia.

Mais a frente, um artista. Você percebe o estilo diferente das roupas, assim como os respingos de tinta. O que você não percebe, no entanto, é a expressão atormentada. Antes de chamá-lo de desocupado, outra pasta é aberta. Sabia que ele é formado em arte por uma das faculdades mais renomadas? Mas ainda assim, ele não consegue vender seus quadros. Porque pessoas como você, não se importam com a arte que ele carrega na alma. Sabia que o tormento é porque seu irmão menor está com fome? Ele também. Não, o irmão vem em primeiro lugar. Você sabia que ele trabalha como garçom em dois lugares antes de voltar para casa e tentar se manter acordado para expressar sua angústia nos quadros? Antes de guardar as páginas, olhe bem para ele. O talento em baixo do casaco respingado é algo que você nunca terá e, aparentemente, nunca verá. Pelo modo como a fome o corrói, ele vai desistir dos pincéis em breve.

Atrás, uma adolescente. Os livros pesados agarrados ao seu corpo, quase como um escudo. A calça é larga demais para a estatura de seu corpo, a blusa retira todas as curvas que poderiam existir. Aqueles óculos aumentam levemente os olhos, os cabelos voam incessantes em seu rosto abaixado. Rata de biblioteca, nerd antissocial. Vive no mundo dos livros, não sabe nada sobre a vida. Coitada, é uma sonhadora. Você sorri com suas suposições, certa de que estão todas corretas. Para assegurar sua vitória, abre a pasta. Bem, talvez não tão correta. Lembra dela? Aquela garota com o vestido vermelho que você amou, no bar perto da sua casa? Ela estava rindo, contando aos amigos como ela e o namorado se conheceram na livraria. Não se lembra dela? Mas ela estava na mesma mostra de cinema que você foi mês passado, com um crachá ao redor do pescoço. Assistente do organizador. Ela quer estagiar para a empresa quando começar a faculdade de cinema. Pelo olhar orgulhoso do homem responsável pelo evento e os elogios que ele depois diria aos seus superiores, não havia dúvida que sua vaga já estava segura. Você sabia que ela é a irmã mais velha de quatro crianças? E que a mãe nunca está em casa, ocupada com seus próprios casos amorosos? O pai? Foi embora assim que ela nasceu. A família é sua responsabilidade, ela deixou de ser uma adolescente há muito tempo. E mesmo com uma gigante bagagem nos braços, ela estava no bar, sorrindo. Ela estava na mostra, conseguindo seu futuro emprego. Ela sabe mais sobre a vida do que você, e ainda assim, ela sonha.

Quatro pastas analisadas. Qual sua conclusão? Ainda acha que sabe julgá-los? Suas suposições estavam certas?


Sim? Bem, verdade seja dita. Não tenho sua pasta. Nem a de ninguém. Você continua a olhar ao redor e supor sobre vidas que não tem o menor conhecimento. Faça o que quiser. Amanhã, você observará as lágrimas da mulher maquiada, sua filha será operada pelo homem tatuado, você será atendida pelo artista vestido de garçom e verá no cinema o filme dirigido pela garota sonhadora. Eles são muito mais que julgamentos falsos. Mas veja, quem sou eu para julgá-la?

Thais T.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Do verbo existir

Verbos do gênero feminino


Ela era uma máscara.
Protetora assídua de seu disfarce diário, esperava que os extremos desviassem a atenção de seus olhos sem alma para sua pele exposta. Ela modelava seu belo corpo em pouco tecido enquanto sua mente procurava uma razão para estar viva. Ela desfilava em saltos extravagantes enquanto forçava as lágrimas remanescentes a não despencar. Ela envolvia o rosto com maquiagem enquanto por dentro já não havia mais barreira que a mantivesse firme. Ela sorria sempre, porque caso parasse, jamais voltaria a fazê-lo. O passado não fora bondoso, o futuro não passava de um cômodo escuro. O presente, contudo, era uma máscara.

Ela concluiu que a frase “o tempo cura tudo” era a mais sorrateira das mentiras, as feridas deixadas por anos de uma existência duvidosa permaneciam ardendo. Ás vezes até gotejando o sangue que uma vez já fora tão límpido.

E quase ao amanhecer, quando voltava para casa após horas de envenenamentos, ninguém a via. A mulher por baixo de tantas camadas de maquiagem e uma pretensa ousadia. Ninguém a escutava. Soluços fracos preenchiam o ar rarefeito de seu quarto. Ninguém a tocava. Sua pele quebradiça ao toque, seu interior seco ao tato. Ninguém estava imerso em seu mar de memórias doloridas e sorrisos fabricados, logo, todos que a viam emolduravam a simples imagem da vulgaridade. A inabilidade de observar antes de julgar os fazia visualizar uma mulher rasa quando, na verdade, ela era um penhasco, tão profunda a ponto de não ter fim. Uma queda interminável, sem previsão para se quer vislumbrar o solo à frente. Exausta, ela secretamente esperava o momento da colisão, mas jamais ousaria apressá-lo, as leis da física nunca foram seu forte.

Existir era uma árdua tarefa, uma questão de sobrevivência. Ela se perdeu há anos e por um tempo vagou pelo mundo a procura de si. Batalha perdida; voltou de mãos vazias. A seguir, recebeu golpes duros demais para seus escudos incertos. Em pouco tempo, ela passou de perdida para quebrada e continuou se estilhaçando. Teve o cuidado, entretanto, de lapidar as afiadas beiradas de seus cacos. Repudiava a ideia de cortar outros por seus próprios machucados e mais ainda de repassar a alguém o legado da máscara que carregava todo dia.

Talvez ela não tenha sido forte o suficiente para responder as provocações da vida, talvez tenha sido fraca demais para lutar de volta, talvez ela tivesse as armas e as defesas e não soube manuseá-las. Ou talvez ela tenha sido o verdadeiro significado de viver. Independentemente do disfarce que encobria sua dor, ela permanecia ali, existindo.

Thais T.

Do verbo doar

Verbos do gênero feminino

Ela era uma doadora.
E pior, uma doadora com um coração de rápido fascínio. Não eram necessários incontáveis buquês de flores e caixas de chocolate, apenas um sorriso supostamente verdadeiro. Sua mente não amadurecera com o resto de seu corpo, embora sem de fato nenhum atraso mental, ela permanecia no ensino médio. Tão inocente quanto o primeiro amor, sua confiança era domada em questão de segundos. E em minutos, ela já estava fazendo o que de melhor sabia: doar. Em horas, nada mais a pertencia. Casa, dinheiro, tempo. No dia seguinte, bens mais profundos eram doados. Corpo, fala, pensamentos, segredos. No entanto, nunca era o suficiente. Após receber sorridente tudo o que ela tinha para dar, ele sempre partia e jamais voltava. Ás vezes ela ganhava um beijo na testa como um souvenir deixado depois de tantos presentes. No final, ela doava seu último bem: lágrimas de um coração “desfascinado” e quebrado.

Honestamente, ela não tinha uma personalidade marcante ou uma beleza avassaladora. Nada que a fizesse permanecer na memória de seus receptores. Nada além de uma breve e desbotada imagem da mulher inocente que acreditou no amor. Na verdade, seu erro não foi pensar que o sentimento existe, mas sim que as pessoas poderiam ser reais. Emoções chegam e se vão com a naturalidade humana, o homem, contudo, só fica porque ainda há espaço em suas mãos para sugar mais um pouco. Quando ele enfim se saciar, é a hora de partir. Ela então se torna as migalhas do que ele tomou. Devagar, se ergue, se reconstrói, se remonta. Uma peça sumiu. A cada nova doação, embora erguida, partes desaparecem. Ela é uma construção duvidosa, de base mal feita, nunca inteira. Todos ao redor temem o dia que as pilastras remanescentes cederão. Eles têm medo do desabamento. Ela não. Tão destemida a ponto de tomar o risco de se perder por poucos dias de uma pretensa felicidade. Não existe medo o suficiente que a faça parar. Ela doa, ela seca, ela “desfascina”, ela quebra, ela reconstrói.

Quem sabe um dia, ela encontre uma alma quase tão generosa quanto a sua. Alguém que receba e doe na mesma proporção. Dois prédios com perigo de desmoronar se apoiando mutuamente. Um doador que embora devolva grande parte, guarde para si um pedaço  e doe para ela outro, arrancado de sua própria estrutura. E que lembre. Sempre se lembre da mulher que acreditou na honestidade de um único sorriso.

Thais T.

sábado, 6 de julho de 2013

Come with me to Neverland



Crescer significa diferentes sentidos para diferentes pessoas. Para alguns, é estar legalmente autorizado a fazer o que antes era proibido – e claro, uma vez proibido, uma vez mais tentador. Para outros, é assumir responsabilidades; ajustar o relógio de pulso; deixar de lado o jeans e tênis; ouvir somente música clássica. Para mim, é crescer. Ponto. E é justamente essa incerteza que melhor define a palavra. Incerta dos previsíveis erros, das prováveis tolices, dos possíveis fracassos. Incerta dessa “adultice” que parece engolir todos os que crescem. Pois para mim, crescer é uma junção de defeitos e novas exceções. Agora, sou adulta, mas de ontem para hoje e de hoje para amanhã, nada muda. Ainda sonho com a Terra do Nunca.

T.T.