segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Do verbo existir

Verbos do gênero feminino


Ela era uma máscara.
Protetora assídua de seu disfarce diário, esperava que os extremos desviassem a atenção de seus olhos sem alma para sua pele exposta. Ela modelava seu belo corpo em pouco tecido enquanto sua mente procurava uma razão para estar viva. Ela desfilava em saltos extravagantes enquanto forçava as lágrimas remanescentes a não despencar. Ela envolvia o rosto com maquiagem enquanto por dentro já não havia mais barreira que a mantivesse firme. Ela sorria sempre, porque caso parasse, jamais voltaria a fazê-lo. O passado não fora bondoso, o futuro não passava de um cômodo escuro. O presente, contudo, era uma máscara.

Ela concluiu que a frase “o tempo cura tudo” era a mais sorrateira das mentiras, as feridas deixadas por anos de uma existência duvidosa permaneciam ardendo. Ás vezes até gotejando o sangue que uma vez já fora tão límpido.

E quase ao amanhecer, quando voltava para casa após horas de envenenamentos, ninguém a via. A mulher por baixo de tantas camadas de maquiagem e uma pretensa ousadia. Ninguém a escutava. Soluços fracos preenchiam o ar rarefeito de seu quarto. Ninguém a tocava. Sua pele quebradiça ao toque, seu interior seco ao tato. Ninguém estava imerso em seu mar de memórias doloridas e sorrisos fabricados, logo, todos que a viam emolduravam a simples imagem da vulgaridade. A inabilidade de observar antes de julgar os fazia visualizar uma mulher rasa quando, na verdade, ela era um penhasco, tão profunda a ponto de não ter fim. Uma queda interminável, sem previsão para se quer vislumbrar o solo à frente. Exausta, ela secretamente esperava o momento da colisão, mas jamais ousaria apressá-lo, as leis da física nunca foram seu forte.

Existir era uma árdua tarefa, uma questão de sobrevivência. Ela se perdeu há anos e por um tempo vagou pelo mundo a procura de si. Batalha perdida; voltou de mãos vazias. A seguir, recebeu golpes duros demais para seus escudos incertos. Em pouco tempo, ela passou de perdida para quebrada e continuou se estilhaçando. Teve o cuidado, entretanto, de lapidar as afiadas beiradas de seus cacos. Repudiava a ideia de cortar outros por seus próprios machucados e mais ainda de repassar a alguém o legado da máscara que carregava todo dia.

Talvez ela não tenha sido forte o suficiente para responder as provocações da vida, talvez tenha sido fraca demais para lutar de volta, talvez ela tivesse as armas e as defesas e não soube manuseá-las. Ou talvez ela tenha sido o verdadeiro significado de viver. Independentemente do disfarce que encobria sua dor, ela permanecia ali, existindo.

Thais T.

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