Ela era uma máscara.
Protetora assídua de seu disfarce diário, esperava que os extremos desviassem a
atenção de seus olhos sem alma para sua pele exposta. Ela modelava seu belo
corpo em pouco tecido enquanto sua mente procurava uma razão para estar viva.
Ela desfilava em saltos extravagantes enquanto forçava as lágrimas
remanescentes a não despencar. Ela envolvia o rosto com maquiagem enquanto por
dentro já não havia mais barreira que a mantivesse firme. Ela sorria sempre,
porque caso parasse, jamais voltaria a fazê-lo. O passado não fora bondoso, o
futuro não passava de um cômodo escuro. O presente, contudo, era uma máscara.
Ela concluiu que a frase “o tempo cura tudo” era a mais sorrateira das
mentiras, as feridas deixadas por anos de uma existência duvidosa permaneciam
ardendo. Ás vezes até gotejando o sangue que uma vez já fora tão límpido.
E quase ao amanhecer, quando voltava para casa após horas de envenenamentos,
ninguém a via. A mulher por baixo de tantas camadas de maquiagem e uma pretensa
ousadia. Ninguém a escutava. Soluços fracos preenchiam o ar rarefeito de seu
quarto. Ninguém a tocava. Sua pele quebradiça ao toque, seu interior seco ao
tato. Ninguém estava imerso em seu mar de memórias doloridas e sorrisos
fabricados, logo, todos que a viam emolduravam a simples imagem da vulgaridade.
A inabilidade de observar antes de julgar os fazia visualizar uma mulher rasa
quando, na verdade, ela era um penhasco, tão profunda a ponto de não ter fim.
Uma queda interminável, sem previsão para se quer vislumbrar o solo à frente.
Exausta, ela secretamente esperava o momento da colisão, mas jamais ousaria
apressá-lo, as leis da física nunca foram seu forte.
Existir era uma árdua tarefa, uma questão de sobrevivência. Ela se perdeu há
anos e por um tempo vagou pelo mundo a procura de si. Batalha perdida; voltou
de mãos vazias. A seguir, recebeu golpes duros demais para seus escudos
incertos. Em pouco tempo, ela passou de perdida para quebrada e continuou se
estilhaçando. Teve o cuidado, entretanto, de lapidar as afiadas beiradas de
seus cacos. Repudiava a ideia de cortar outros por seus próprios machucados e
mais ainda de repassar a alguém o legado da máscara que carregava todo dia.
Talvez ela não tenha sido forte o suficiente para responder as provocações da
vida, talvez tenha sido fraca demais para lutar de volta, talvez ela tivesse as
armas e as defesas e não soube manuseá-las. Ou talvez ela tenha sido o
verdadeiro significado de viver. Independentemente do disfarce que encobria sua
dor, ela permanecia ali, existindo.
Thais T.
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