segunda-feira, 28 de março de 2011

Novos ares

          
          Pela manhã, quando enfim abro meus olhos com o intuito de começar mais um dia, não posso deixar de pensar em quão tediosa minha vida anda. Isso é, andava. Ano passado, a palavra monotonia era capaz de definir a cada dia pelo qual eu passava. Hoje, no entanto, um triste motivo me fez sair da rotina “sem nada para fazer” que eu antes exercia. Escola. Estudo. Vestibular. As intermináveis horas que antigamente eu atravessava olhando para o teto, na frente do computador, assistindo filmes e séries e comendo, comendo, comendo... agora não passam de curtos momentos. Eu certamente não estudo o tanto que deveria, grande parte se passa com minha mente vagando por pensamentos distraídos enquanto tenho a forte sensação de que deveria estar estudando, mas não me sinto mais à vontade para deitar e adormecer a tarde inteira, para mergulhar na Internet e só retornar a superfície na hora de dormir, para fitar além da janela nada em especifico, porque, com ou sem meu consentimento, a maldita consciência pesa. Eu deveria estar estudando, eu deveria estar estudando...
          Contudo, ainda que eu definitivamente tenha muito o que fazer, não posso negar: Que tédio! Necessito, de modo quase desesperador, de surpresas, novidades, algo inesperado, novos ares. E, por mais absurdo que possa soar, sei, que a mais ou menos 2 anos, quando estiver na faculdade – por favor, por favor que seja verdade – sentirei falta de toda essa rotina sem graça, de ir para a escola com cara de sono, com bocejos presos na garganta, com o cabelo para cima e olheiras profundas. Aquela saudade esquisita de encontrar os amigos na entrada, saída e intervalo, de conversar em horas inapropriadas, de levar bronca do professor, de rir por nada, de sentir que por mais que o mundo caia, aquela turma é sua segunda família.
          Enfim, seja a nostalgia dos tempos que agora é presente e depois será passado, seja o impressionante fato de que o dia tem 24 horas quando na verdade tudo passa tão rápido na menor distração, ou seja porque – o motivo inicial do texto afinal – adolescente que é adolescente se sente entediado, - Sempre. A toda hora. A todo minuto - não há como negar, ser surpreendida torna a vida mais excitante.
          Talvez seja por isso que a medicina me encante tanto, que ser cirurgiã está no topo da minha lista de profissões mais possíveis, mesmo que sinceramente, eu não faça idéia do que fazer da minha vida. A cada dia é uma nova surpresa, um novo problema, uma nova solução. Sim, teoria meio peculiar.
          Então é o seguinte, vida, me faça um favor. Dê-me alegrias, tristezas, mágoas, orgulhos, mas me dê o imprevisto. O desconhecido. O extraordinário. Por favor, me surpreenda!

Thais T.

sexta-feira, 11 de março de 2011

O anjo da guarda

10/03/11
Há exato 1 ano, um jovem sorriso esmaeceu.
Um garoto de olhos bondosos, atitudes tímidas e um aceno acanhado, porém cativante, partiu para um lugar incomensuravelmente melhor do que onde estamos. Um local sem ganância, sem mentiras, sem maldade. Ele foi para o céu.
E enquanto estava aqui, foi parte essencial do imbatível trio de amigos no qual meu irmão menor fazia parte. Três meninos sorridentes, apaixonados por futebol, donos de corações inocentes que nutriam um sentimento único: a mais pura amizade. Aquela que lemos em livros, a que supomos ser irreal, aquela que somente as crianças possuem.
Não tive a oportunidade de conhecê-lo como deveria, nossos encontros foram breves momentos nos quais meu papel de irmã mais velha estava sendo exercido. Lembro-me, no entanto, de vê-los – ele e meu irmão – jogando futebol aos risos na quadra do colégio, a bola, muitas vezes substituída por uma tampinha de garrafa, passando de pé em pé até o gol, quando ambos sorriam entre si e comemoravam com a alegria de uma verdadeira criança. Memória essa, ou mesmo a que minha avó contou-me uma vez, faz surgir dentre lágrimas, um singelo sorriso. Uma imagem na qual minha mente fez questão de desenhar cada simples detalhe. A cada hora da saída, enquanto todos se retiravam da sala de aula, meu irmão costumava ser um dos últimos a terminar de copiar o dever do quadro, e era ele, o dono do sorriso meigo, que o esperava. Sentado uma cadeira a frente, ele se virava para o pequeno atrasado, aguardando-o para poderem juntos, brincar antes que viessem levá-los para casa. Pode parecer besteira, uma lembrança simples, mas são exatamente essas simplicidades que faz um dia se tornar melhor.
Após esse relativo tempo, aprendi como lidar com a dor de um garoto de 8 anos. Ainda que meu irmão não demonstre com tamanha freqüência que a maioria das crianças faria, sei que ele pensa em seu amigo muito mais do que nos diz. Pequenas atitudes me revelam isso. Seja porque a cada noite que ele se lembra, vem a mim pedir ajuda para que rezemos juntos por seu companheiro de futebol. Seja porque às vezes, me deparo com um menino que deveria estar em seu mais alto grau de energia, navegando em pensamentos, calmo e distraído. Seja porque meu coração, mesmo que encapado por uma fria camada, se aperta ao ouvi-lo dizer: Lembrei dele hoje. Palavras essas acompanhadas de um sorriso triste que não chega aos olhos. Poucos são os que fazem idéia de quão grande pode ser a tristeza de uma criança, e eu, sinceramente, não queria fazer parte desse grupo. Por isso, de modo contínuo me vejo questionando: Por que? Por que ele?
Hoje, porém, após sua missa de um ano, entendi que há muito mais que uma simples resposta. E enquanto cantava parabéns para uma criança que completaria ontem 9 anos e observava sorrateiramente uma solitária lágrima escapar do olho do meu irmão, compreendi que ainda tenho muito a aprender, e além disso, a famosa frase “Viva a vida intensamente” passou a fazer mais sentido. Porque se ele, na sua infância, foi enfraquecido por uma doença considerada “de adulto”, qualquer um de nós pode se apagar por muito menos.
Então, em meio a tanta mágoa, tive plena certeza de uma coisa. Meu irmão estava sendo protegido. Porque lá de cima, de um lugar onde eu acredito que o extraordinário som de uma risada infantil seja constante, tem alguém resguardando por ele. O anjo Douglas.

Thais T.
Jesus, Meu Deus humano.
Não, eu não vi a sua cura se cumprir,
Eu não vi o seu milagre acontecer,
Nada que eu pedi a Deus aconteceu.

É... Vou tentando achar o rumo por aqui,
Vou reaprendendo ser sem ter você,
Descobrindo em mim o que você deixou.

Grito seu nome, desejoso de resposta,
Quando vejo a mesa posta, e seu lugar sem ter ninguém.

Mas nessa ausência, sei que existe outra presença
Uma força que sustenta, e que me faz permanecer... de pé.

É Jesus, meu Deus humano, meu Deus humano,
Que conhece a dor de ver partir a quem se ama.
Que chorou de saudade, que sofreu por seus amigos,
E que esteve ao meu lado, quando eu vi você partir.

Por que você partiu, por que você se foi,
E por que o milagre não se deu como eu pedi.

Não, eu não vou perder a fé nem desistir,
Foi você que me ensinou antes de ir.
Vou vivendo assim, conhecendo o coração,
Que você fez pulsar em mim.
(Canto final da missa de 1 ano)

quarta-feira, 2 de março de 2011


“Você me provoca, você me perturba. Joga água e sai correndo. Atira a pedra e me acerta de raspão. Me espia no escuro e mostra a língua. Me xinga. Me atiça. Invade o meu sossego. Meu refúgio. Pisa no meu ninho com os sapatos sujos. Na minha toca. Sem saber o meu tamanho, até onde vai meu bote, você me provoca achando que não há perigo. Sem conhecer a força da minha mordida, o tamanho dos caninos. Você me provoca sem esperar a picada. Sem saber que ainda não inventaram antídoto pro meu tipo de veneno…”

- Caio Fernando Abreu.