segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

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Os olhos fechados, excluindo o mundo de sua visão escurecida. Ela colocou o braço sobre o rosto, sem nem perceber que embora significasse sua imobilidade de atitude, também correspondia a sua defesa automática. Mesmo na divisão tênue entre o sono e a realidade, ela se protegia.
A cama era confortável, os travesseiros gigantescos acolhiam seu corpo, os lençóis a convidavam. Não. Havia certo incômodo que não a deixava descansar por completo. Uma pontada na nuca, uma ardência nas pálpebras fechadas, um peso a mais na garganta. Não compreendia, havia feito tudo o que sempre fazia. Ela tomou água, fechou a janela, desligou a luz e se acomodou na cama. O suéter que usava como pijama era o seu favorito, desbotado por uso contínuo. Não entendia. Todo dia, ela deitava e desvanecia. Simples assim. Em um segundo, sua realidade mudava de eixo. Hoje, no entanto, nada que fazia era capaz de melhorar o desconforto.
Então, uma gota de suor brotou da sua testa, tomando-a de surpresa. O quarto era programado para a temperatura ideal, sem calafrios, sem calor. Por um momento, esqueceu sua posição e retirou o braço do campo de visão, procurando o motivo da pequena alteração. Ali, bem do seu lado na cama larga, um feixe de luz invadia o espaço. Que descuido. Uma fresta da janela não fora fechada como deveria, onde ela estava com a cabeça. Espera. Já era manhã? Mas ela acabara de se deitar, não havia conseguido entrar na inconsciência por um minuto se quer. Não, não. Isso mudaria seu dia inteiro, não estava nos planos, não encaixaria na sua agenda. Ela precisava de exatas 8 horas de sono para se sentir disposta no dia seguinte, agora sua exatidão desaparecera.
Com pensamentos acelerados, ela tentava planejar uma rota de fuga. Talvez com bastante café, conseguisse aguentar o dia. Talvez se dormisse por meia hora antes de voltar ao trabalho a tarde, o cansaço fosse mais gentil com seu corpo. Não estava nos planos, droga.
Mas o que? Assim como o horário no relógio de cabeceira, a luz estreita ao seu lado não esperava por ela, avançando e invadindo seu espaço pessoal. Tocou seus cabelos por primeiro. Loiros. Não, dourados. Ela nunca tinha percebido como eles brilhavam sob o foco da luz, quase como nos contos de fada que lia quando criança. Alcançou seu braço por segundo. A pele pálida quase translúcida ao ser posta na intensidade solar, expondo uma teia de vasos, os mesmos que bombeavam seu sangue, os mesmos que a mantinham viva. Atingiu seu suéter por terceiro. Conseguiu ver os fios se desfazendo, como se o feixe de luz fosse uma lupa para detalhes que ela nunca foi capaz de perceber. O tecido já estava além de velho, estava rotineiro, monocromático, entediante.
E por último, iluminou seu rosto. Que sensação estranha. Ela detestava o frio, mas ansiava pelas sombras. Não gostava de ter que estreitar os olhos para ver sob o sol, não gostava de usar menos roupas, não gostava de ser vista facilmente. Então por que relaxou diante do rosto iluminado?
Devagar, a luz foi caminhando pelos seus traços. Os olhos, a testa, o nariz, a boca. Um por um, clareados de volta aos seus sentidos. Não era tão ruim assim. Na verdade, não era ruim de forma alguma. Por todos esses anos, tinha esquecido o calor da pele. Acostumada como estava aos suéteres antigos e a temperaturas ideais, deixou que sua exatidão engolisse os feixes de luz.
Meu deus, ela lembrou, é a mesma sensação da praia grega que fui aos 16 anos. Tinha muita juventude no bolso e pouco protetor solar compartilhado entre 3 amigas, mas sorriu ao recordar da senhora que recomendou um creme feito de produtos locais que ajudava com a ardência da pele rosada demais.
Ou daquela outra vez, ela percebeu, que fizera uma viagem solo para o Oriente Médio. O calor parecia queimar todo centímetro descoberto e coberto a cada segundo, mas enquanto caminhava pelas ruas de culturas fixas, ambulantes, transitórias, tradicionais, centenárias e modernas, nada parecia importar. Ela voltou com mochilas transbordando singularidades e uma memória que na época aparecia no topo da sua lista, mas que agora era difícil recuperar.
O que aconteceu? Ela se sentiu presa à cama, ao relógio de cabeceira, as exatas 8 horas, aos planos. Não culpava a rotina, não. O dia a dia é necessário para sobreviver. Mas em que momento ela deixou de viver?
Com um suspiro, levantou o torso para retirar o suéter, jogando-o em qualquer lugar do quarto. Voltou a se deitar, o corpo exposto à luz, mais intensa conforme as horas passavam. O braço automaticamente se colocou sobre seu rosto, obstruindo parte de sua face para o sol. Pequenos passos. Não o retirou de lá, mas o moveu para que liberasse seus olhos. Abertos. Olhou para a janela, o brilho ofuscou sua visão. Pequenos passos. Um pingo de suor escorreu pelo seu pescoço, ela não se moveu. Chutou o cobertor para fora da cama, se acomodou nos lençóis. Talvez dormisse agora, talvez tomasse café, talvez permanecesse acordada. Pequenos passos. Ela entendeu qual era o incômodo de antes, sorriu e não fechou os olhos.

Thais T.

Foto escolhida por Thais T.

Eyespiration

Somos todos inspirados. Para esse pequeno projeto, escolhi a inspiração visual. Fotos de significados subliminares, de aparência singela, de personagens perturbadores, de cores diversas a cor nenhuma. 
Com a presença de outro par de olhos, decidimos trocar fotos à espera de textos. Apenas um modo criativo de praticar nossa imaginação reprimida. São pequenas cenas narrativas baseadas na interpretação da imagem escolhida pela outra. Sem definição, sem legenda.
Só uma página em branco, a foto e as palavras que dela surgem.
Assim, Eyespiration surgiu.

Thais T.