domingo, 28 de maio de 2017

The Way I Do - Genialidade: Janelle Ginestra

Assista antes de ler o texto.

Lay my heart down
Laid it down for you
Laid it down for you, oh
Put my arms out
Put 'em out to you
Oh Lord I was reaching for ya
Reaching for ya

Oh child, reaching for ya
Reaching for ya
Oh, but you will never know this love
Will never know this pain
Never know the way I feel for you
You will never know this touch
Will never know this shame
Will never know the way I want you to

You will never know my love
You will never feel the way I do
You will never know my love
You will never feel the way I do

Colocaria meu coração para baixo
Pus para baixo para você
Pus para baixo para você, oh
Colocar meus braços para fora
Colocá-los para fora para você
Oh Senhor, eu estava alcançando você
Alcançando você

Oh criança, estendendo a mão para você
Alcançando você
Oh, mas você nunca vai saber desse amor
Nunca vai saber esta dor
Nunca vai saber o que eu sinto por você
Você nunca vai saber este toque
nunca vai saber dessa vergonha
nunca vai saber da maneira que eu quero

Você nunca vai saber sobre o meu amor
Você nunca vai sentir da maneira que eu sinto
Você nunca vai saber sobre o meu amor
Você nunca vai sentir da maneira que eu sinto

Esse é o tipo de coreografia que provoca as terminações nervosas da minha pele, causa nelas aquele formigamento estranho que não tem causa definida nem cura específica. O tipo que vai crescendo na música, no chão, no dançarino e, dentro de mim, especialmente.

Acrescentei a letra da música no início porque existem danças que não necessariamente dependem do significado, essa não é uma delas. O ritmo, os movimentos, as palavras e as expressões, todas se mesclaram em uma grande bomba-relógio, coladas e unidas; se for para explodir, que sejam todas juntas.

E é por aí que vou começar. Expressão. Não é à toa que a coreógrafa é tão renomada mundialmente, não apenas sua técnica e criatividade excedem o ordinário, mas suas expressões faciais também.
Se você acha que dança se limita ao corpo, assista o vídeo de novo e fique mais atento aos rostos.

A coreografia inicia com o que eu entendo como estupor. Aquela sensação de simplesmente não sentir, o vazio de algo que já foi tão usado, tão abusado, tão deteriorado que não há nada a fazer além de permanecer.


E então, tudo explode.

Não era verdade afinal, é só mais fácil fingir que não se sente. Mas no fundo, na solidão do quarto, na escuridão noturna, nos pensamentos distraídos, tudo o que você faz é sentir. O que? Nesse caso, o amor e a dor estão tão entrelaçados que a linha entre eles é invisível a olho nu. Sendo bem honesta, eu nunca tive essa experiência, e justamente por isso, que a arte é tão maravilhosamente bonita. Ela causa, origina, excita, provoca emoções que você jamais se quer sonhou em sentir como se fossem suas e somente suas.

Mas aqui vai o que as minhas terminações nervosas captaram, da ponta do cabelo até a ponta dos pés.
Você vê como certos movimentos são bruscos? Fortes e potentes? E como outros são resignados à uma implosão interna? Você vê? Talvez não, talvez sim. Pois eu vejo, muito provavelmente parte da minha própria imaginação, ou muito provavelmente parte da mente extraordinária da coreógrafa.
São movimentos que expressam (aquela palavra de novo), aos meus olhos, o ato de amar tão intenso, mas tão intenso, que você se perde na profundidade. É a respiração rápida e o constringir da barriga, a boca seca e o olhar fosco. Não é apenas estar apaixonado, mas se entregar de tal forma que você tem a mais plena certeza que a outra pessoa, seja correspondido ou não, jamais vai lhe amar como você a ama. Porque não existe a possibilidade de outro corpo comportar o que está dentro de você.

E com isso, vem a dor. É amar tanto, mas tanto, que dói a ponto do desespero. Sim, é clichê. E eu me importo? Nem um pouco.

Sabe aquele frio na barriga? Já virou uma hipotermia generalizada. Sua caixa torácica não deixa mais os pulmões se expandirem e os olhos estão foscos de lágrimas, ou talvez a falta delas. É uma dor interna que os dançarinos puxaram, esticaram, arrancaram para fora. Foi um cabo de guerra, e eles venceram. Espero que você tenha visto as expressões, as dolorosas e doloridas; alguns estavam a ponto de chorar, alguns eram consumidos pela raiva; outros simplesmente doíam. Cada um lida com a dor de uma forma, e uma dança conseguiu expor esse fato da melhor maneira possível.

Sem contar, é claro, em quão talentosos eles são. Como admiradora assídua, já acompanho a maior parte deles. E para a sua informação, a maioria ainda não completou nem 17 anos e, ainda assim, eles expressaram a dor de alguém que viveu vidas e vidas de um amor mais alto que todos eles juntos. É uma juventude que traz para a arte a intensidade que só um adolescente entende, com uma coreografia que só um artista entende, com uma expressão que só o talento entende; e para os admiradores, nos resta repetir quantas vezes for necessário para compreender que a dança, mesmo via youtube, toca mais terminações nervosas do que muito contato físico real.


Eu tinha muito mais para escrever sobre essa coreografia, mas assim como eles, é tanto, mas tanto, que eu me perdi. Acredite se quiser, estou escrevendo esse texto inteiro com a respiração cortada, pausando o digitar vez ou outra para rever o vídeo e sentir tudo de novo, pausar mais um pouco para recuperar o fôlego e voltar a perde-lo um segundo depois.

Agora que você leu toda essa insanidade, clique no botão play novamente e reveja, reassista, reobserve e, agora, sinta. Muito provável que não como eu, mas do seu jeito. Porque, afinal, you’ll never feel the way I do.


Thais T.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

1...




Os olhos fechados, excluindo o mundo de sua visão escurecida. Ela colocou o braço sobre o rosto, sem nem perceber que embora significasse sua imobilidade de atitude, também correspondia a sua defesa automática. Mesmo na divisão tênue entre o sono e a realidade, ela se protegia.
A cama era confortável, os travesseiros gigantescos acolhiam seu corpo, os lençóis a convidavam. Não. Havia certo incômodo que não a deixava descansar por completo. Uma pontada na nuca, uma ardência nas pálpebras fechadas, um peso a mais na garganta. Não compreendia, havia feito tudo o que sempre fazia. Ela tomou água, fechou a janela, desligou a luz e se acomodou na cama. O suéter que usava como pijama era o seu favorito, desbotado por uso contínuo. Não entendia. Todo dia, ela deitava e desvanecia. Simples assim. Em um segundo, sua realidade mudava de eixo. Hoje, no entanto, nada que fazia era capaz de melhorar o desconforto.
Então, uma gota de suor brotou da sua testa, tomando-a de surpresa. O quarto era programado para a temperatura ideal, sem calafrios, sem calor. Por um momento, esqueceu sua posição e retirou o braço do campo de visão, procurando o motivo da pequena alteração. Ali, bem do seu lado na cama larga, um feixe de luz invadia o espaço. Que descuido. Uma fresta da janela não fora fechada como deveria, onde ela estava com a cabeça. Espera. Já era manhã? Mas ela acabara de se deitar, não havia conseguido entrar na inconsciência por um minuto se quer. Não, não. Isso mudaria seu dia inteiro, não estava nos planos, não encaixaria na sua agenda. Ela precisava de exatas 8 horas de sono para se sentir disposta no dia seguinte, agora sua exatidão desaparecera.
Com pensamentos acelerados, ela tentava planejar uma rota de fuga. Talvez com bastante café, conseguisse aguentar o dia. Talvez se dormisse por meia hora antes de voltar ao trabalho a tarde, o cansaço fosse mais gentil com seu corpo. Não estava nos planos, droga.
Mas o que? Assim como o horário no relógio de cabeceira, a luz estreita ao seu lado não esperava por ela, avançando e invadindo seu espaço pessoal. Tocou seus cabelos por primeiro. Loiros. Não, dourados. Ela nunca tinha percebido como eles brilhavam sob o foco da luz, quase como nos contos de fada que lia quando criança. Alcançou seu braço por segundo. A pele pálida quase translúcida ao ser posta na intensidade solar, expondo uma teia de vasos, os mesmos que bombeavam seu sangue, os mesmos que a mantinham viva. Atingiu seu suéter por terceiro. Conseguiu ver os fios se desfazendo, como se o feixe de luz fosse uma lupa para detalhes que ela nunca foi capaz de perceber. O tecido já estava além de velho, estava rotineiro, monocromático, entediante.
E por último, iluminou seu rosto. Que sensação estranha. Ela detestava o frio, mas ansiava pelas sombras. Não gostava de ter que estreitar os olhos para ver sob o sol, não gostava de usar menos roupas, não gostava de ser vista facilmente. Então por que relaxou diante do rosto iluminado?
Devagar, a luz foi caminhando pelos seus traços. Os olhos, a testa, o nariz, a boca. Um por um, clareados de volta aos seus sentidos. Não era tão ruim assim. Na verdade, não era ruim de forma alguma. Por todos esses anos, tinha esquecido o calor da pele. Acostumada como estava aos suéteres antigos e a temperaturas ideais, deixou que sua exatidão engolisse os feixes de luz.
Meu deus, ela lembrou, é a mesma sensação da praia grega que fui aos 16 anos. Tinha muita juventude no bolso e pouco protetor solar compartilhado entre 3 amigas, mas sorriu ao recordar da senhora que recomendou um creme feito de produtos locais que ajudava com a ardência da pele rosada demais.
Ou daquela outra vez, ela percebeu, que fizera uma viagem solo para o Oriente Médio. O calor parecia queimar todo centímetro descoberto e coberto a cada segundo, mas enquanto caminhava pelas ruas de culturas fixas, ambulantes, transitórias, tradicionais, centenárias e modernas, nada parecia importar. Ela voltou com mochilas transbordando singularidades e uma memória que na época aparecia no topo da sua lista, mas que agora era difícil recuperar.
O que aconteceu? Ela se sentiu presa à cama, ao relógio de cabeceira, as exatas 8 horas, aos planos. Não culpava a rotina, não. O dia a dia é necessário para sobreviver. Mas em que momento ela deixou de viver?
Com um suspiro, levantou o torso para retirar o suéter, jogando-o em qualquer lugar do quarto. Voltou a se deitar, o corpo exposto à luz, mais intensa conforme as horas passavam. O braço automaticamente se colocou sobre seu rosto, obstruindo parte de sua face para o sol. Pequenos passos. Não o retirou de lá, mas o moveu para que liberasse seus olhos. Abertos. Olhou para a janela, o brilho ofuscou sua visão. Pequenos passos. Um pingo de suor escorreu pelo seu pescoço, ela não se moveu. Chutou o cobertor para fora da cama, se acomodou nos lençóis. Talvez dormisse agora, talvez tomasse café, talvez permanecesse acordada. Pequenos passos. Ela entendeu qual era o incômodo de antes, sorriu e não fechou os olhos.

Thais T.

Foto escolhida por Thais T.

Eyespiration

Somos todos inspirados. Para esse pequeno projeto, escolhi a inspiração visual. Fotos de significados subliminares, de aparência singela, de personagens perturbadores, de cores diversas a cor nenhuma. 
Com a presença de outro par de olhos, decidimos trocar fotos à espera de textos. Apenas um modo criativo de praticar nossa imaginação reprimida. São pequenas cenas narrativas baseadas na interpretação da imagem escolhida pela outra. Sem definição, sem legenda.
Só uma página em branco, a foto e as palavras que dela surgem.
Assim, Eyespiration surgiu.

Thais T.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Vai ficar tudo bem.

Sonhos são conhecidos como o combustível das mentes criativas; o início de uma vida com potencial para a diferença; a curiosidade sobre os segredos do universo.

Sonhos são enlaçados em flores e mágica, transformados em suor e sangue, protagonizados na cultura da beleza dramática.

Sonhos são sim o pó mágico capaz de fazer voar, a lâmpada do gênio, o sapato de cristal e o heroísmo em salvar a pessoa que ama.

Mas sonhos são mais.

Não se engane. Embora ser um sonhador seja uma das características de todos que almejam construir mundos, poucos percebem que as rachaduras também são parte.

Um coração partido. Um emprego perdido. Uma família desfeita. Um sorriso apagado. Uma vida interrompida. Uma amizade fragmentada. Uma carreira insuficiente.

O que muitos ignoram é a dor que os sonhos são capazes de trazer. Quando o tempo nos mostra que está na hora de desistir, desviar de caminho porque o escolhido antes está em terreno movediço e não importa o quanto você se mova ou permaneça imóvel, não consegue seguir em frente. E no momento que você decide “acabou”, tenta se convencer que parte de si não morreu junto com o sonho. Não, tudo vai ficar bem. Eu vou ficar bem. Terão outras oportunidades. Eu sou jovem. Não era para ser. Tudo vai ficar bem. Vai ficar bem. Vai ficar.

Você acredita?

Não. É inevitável pensar no que seria, onde estaria, o que faria. O “se” é, afinal, tão mortal quanto os planos quebrados. Imaginar uma vida que não lhe pertence é sempre mais fácil do que enfrentar a que possui, encarar as consequências do tempo perdido em um desejo que jamais vai se consolidar, compreender o simples fato: “você não é o suficiente”. Simples? Para quem? O que preciso fazer para ser capaz? Por que não consigo? O peso da rejeição de ideias, carreiras, amores. O fardo de não ser a droga de suficiente e, portanto, a insegurança de nunca mais ser apto a escolher o próprio caminho, ser limitado ao medíocre e não fazer absolutamente nenhuma diferença no mundo. Qual foi meu erro? Honestamente, ninguém nunca vai conseguir lhe responder. Por que sonhos doem? Por que não se realizam? Não existe pó mágico o bastante para todos? Por que?


Não sei. Sonho em saber a resposta e então, encontrar a cura. Mas veja bem, não consigo fazê-lo se tornar real. Vai ficar tudo bem. Certo?

Thais T.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Por um ano de mais

Por um ano de mais cores. Mais vermelhos: paixões pelos detalhes. A intensidade do registro de cada segundo. Mais azuis: tristezas por tristezas. Menos melancolia e mais braços para carregar bagagens de pesos reais. Mais amarelos: desculpa, mas dinheiro sim. Mais opções em que débitos estudantis não encubram meu barco com cargas inesperadas. Mais roxos: ousadias diárias. Menos medos do amanhã. Mais verdes: viagens, por favor. As quatro pontas da rosa-dos-ventos marcadas no meu mapa. Mais laranjas: faíscas insistentes. Determinação para acreditar no reflexo que observo no espelho. Mais brancos: silêncios no meio do caos. Um quarto solitário para pensamentos tumultuados. Mais pretos: facetas escurecidas. Multifacetados nós somos, mas a que ponto deixamos o lado mais negro emergir?

Por um ano de mais formas. Menos retas. Menos círculos desnecessários. E mais linhas que sigam caminhos tortuosos, mas fundamentais. Mais entrelinhas e cruzamentos, frutos colhidos de árvores passadas. Mais formas desconhecidas que me levem para lugares inesperadamente valiosos
.
Por um ano de mais páginas preenchidas e menos rasuras. Marcas de borracha sim, riscos frustrados não. Livros escritos e canetas sem tinta. Ideias ainda não descobertas, planos ainda não traçados. Negritos para não esquecer, itálicos para contrastar. Mais pontos finais para dramas dispensáveis, vírgulas para enredos com momentânea falta de criatividade, travessões para diálogos não mais silenciados.

Por um ano de mais filmes que valham a pena e filmes de significados supérfluos. Mais dualidade e menos dúvida. Um pouco de cada lado, um equilíbrio sempre desejado; nunca conquistado.

Por um ano de mais medicina. Sim, medicina. Mais aulas cujas finalidades consigo enxergar, mais vontade de estudar, mais motivação para quando não houver vontade. Sim, mais café. Muito mais café. Um bem-vindo a um mundo que ser novato é duro, mas empolgante. Entender que a partir de agora, todos os cadernos são jogados no lixo e novos são comprados, e até o dia que conseguir completá-los com minhas próprias palavras, meu conhecimento voltou à estaca zero. Mais paciência para o universo dos adultos, onde conseguir o que você quer à todo custo não é mais brincadeira.

Por um ano de mais itens fora da lista, mais sonhos realizados, mais realidade e menos ilusão. Nuvens utópicas são belas, mas estar entre o céu e a terra é onde tudo realmente acontece. Voar nas asas certas, pousar quando necessário. Mesclar os fatos e os devaneios, resultar em uma vida de realizações cumpridas. Compreender que crescer nem sempre significa deixar de ser criança, aprender a ser adulto nos momentos que a infantilidade não tem vez. Ser independente.


Por um ano de mais. Simplesmente isso. Mais, 2015.

Thais T.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Ás vezes eu queria simplesmente sentir
Abaixar o escudo e deixar a melancolia fazer seu trabalho
Acordar devagar
Abrir os olhos mais vezes que o normal
Deixar uma ou duas lágrimas no travesseiro
Sentir o cheiro de café fresco
Beber mais lentamente do que acordei
Esperando que o calor emanando da caneca
Faça um percurso reverso e entre em mim
Pegar um livro e não ler
Ligar a televisão e não assistir nada
Uma caneta e um caderno e deixar a página em branco
Melancolia tem seus momentos
Alguns dias, ela simplesmente me inspira a suspirar palavras
Outros, ela retém até meu oxigênio
Vinte e quatro horas
Quarenta e oito
Uma semana
Quem sabe ela seja tão usada que enfim
Decida me deixar em paz
Parta para outro corpo, outro estilhaço
Fique cansada do meu sistema
Talvez, se eu a sentir
Sentir muito e bastante
Ela se canse
E me deixe
Cansada.


Thais T.

domingo, 28 de setembro de 2014

Não tão Bela, um pouco Adormecida

Quando criança, aprendi a acreditar na fantasia. Desde sempre um pouco bipolar, admito. Queria ser tão bonita quanto a Cinderela e, ao mesmo tempo, embora ser uma princesa parecesse um plano infalível, lutar como a Mulan também estava na minha lista de prioridades.

Quando adulta, aprendi que a fantasia serviu seu propósito de alimentar minha imaginação, mas agora era hora de crescer. Guardar o livro de contos de fadas e esquecer que um dia eu sonhei.

Algo certamente deu errado.

Por mais que sim, chorasse com o Bambi e suspirasse com o beijo de amor eterno, eu queria ser médica.
Hoje, não sou médica. Mas queria voltar a ser princesa. Não sua versão Disney, obrigada. Percebi que por mais perfeitos fossem os vestidos, sem dúvida eram desconfortáveis.

Embora entendesse os contos quando criança, notei que como adulta, compreendo em formas que antes não foi possível. Recentemente, assisti os primeiros episódios de uma série chamada Once Upon a Time, totalmente relacionada aos personagens dos nossos livros infantis. E em uma das cenas, o grilo falante em forma humana explicou que relacionar pessoas reais aos contos é a linguagem singular de uma criança, sua forma de lidar com emoções complexas. Bem, eu achei genial.

Peter Pan tinha medo de crescer. Hoje entendo que não existia garoto mais esperto que ele. O que há de bom em crescer? Por que não morar para sempre na Terra do Nunca? Por que não desejar aventuras sem fim com o Capitão Gancho? Espera. Por que eu não consigo voar? Pensamentos positivos, pensamentos positivos, Peter Pan me diz enquanto joga mais pó mágico. Nem um centímetro acima. Sem pensamentos positivos, eu já cresci.

Chapeuzinho vermelho era uma rebelde por natureza. Disse “sim” à ordem da mãe, mas bastou uma pequena distração e já estava em seu próprio caminho. O mais perigoso, é verdade. Encontrou um estranho e conversou com ele, outra desobediência. E coincidentemente, o mesmo desconhecido era o temido lobo mau, cujos dentes afiados atacaram sua avó. Chapeuzinho jamais deixaria isso acontecer. Inconsequente, tomou riscos e aprendeu lições, colocou pessoas que ama em perigo e as salvou. Afinal, não é isso que significa amadurecer?

Tiana, a primeira princesa negra. Na famosa cidade de New Orleans, ela se mostrou parte Cinderela enquanto trabalhava arduamente servindo os típicos e meus sonhos de consumo Beignets. Com café, por favor. Ela também foi parte Ratatouille (além da culinária), se transformou em um animal que as pessoas não costumam sentir muita empatia e ainda assim conquistou o público. Mas ela foi, acima de tudo, forte. Admiradora do pai, manteve-se firme aos seus valores e não cedeu ao Dr. Facilier, um feiticeiro bem bizarro, quando ele tentou lhe seduzir com a realização de seu maior sonho em troca do talismã. Ela disse não e, com a ajuda dos amigos, construiu seu restaurante com as próprias mãos. Tiana quer tirar da mente das meninas que esperar na sacada realizará desejos, não adianta o vestido mais bonito se não houver determinação. Tanto para aceitar o trabalho e as unhas quebradas, quanto para negar os atalhos que agora parecem tentadores, mas depois voltam para assombrar.

Frozen e Malévola são as mostras claras de que príncipes são bem vindos, mas não necessários. Romance, é verdade, embeleza uma história. Independente do ceticismo, um beijo romântico sempre arrecada suspiros. Contudo, finais felizes não dependem deles. Se é amor verdadeiro, por que não família? Namorados vêm e vão, irmãs permanecem até quando você não acorda com os pássaros cantando e o cabelo perfeito. Como a Anna, meu sono é precioso, acordar de madrugada unicamente para brincar na neve com minha irmã super poderosa.


Talvez, quando criança eu não tivesse entendido tudo o que hoje compreendo. Contos de fadas são sim infantis, mas não menos verdadeiros. Sou adulta hoje, embora ainda expresse meus complexos sentimentos através de personagens. Não mais lobos maus e princesas, infelizmente. Crio meus próprios vilões e mocinhas, menos bem vestidas e mais Meridas e Tianas, um pouco angustiadas como a Elsa, um pouco apreciadoras de bibliotecas como a Bela, um pouco perdidas como a Ariel, um pouco insanas como a Alice. É hora de crescer sim, mas ser “grande demais” não é desculpa para se contentar com realidades pequenas.  


Thais T.