Quando criança, aprendi a acreditar na fantasia. Desde
sempre um pouco bipolar, admito. Queria ser tão bonita quanto a Cinderela e, ao
mesmo tempo, embora ser uma princesa parecesse um plano infalível, lutar como a
Mulan também estava na minha lista de prioridades.
Quando adulta, aprendi que a fantasia serviu seu propósito
de alimentar minha imaginação, mas agora era hora de crescer. Guardar o livro
de contos de fadas e esquecer que um dia eu sonhei.
Algo certamente deu errado.
Por mais que sim, chorasse com o Bambi e suspirasse com o
beijo de amor eterno, eu queria ser médica.
Hoje, não sou médica. Mas queria voltar a ser princesa. Não
sua versão Disney, obrigada. Percebi que por mais perfeitos fossem os vestidos,
sem dúvida eram desconfortáveis.
Embora entendesse os contos quando criança, notei que como
adulta, compreendo em formas que antes não foi possível. Recentemente, assisti
os primeiros episódios de uma série chamada Once Upon a Time, totalmente
relacionada aos personagens dos nossos livros infantis. E em uma das cenas, o grilo
falante em forma humana explicou que relacionar pessoas reais aos contos é a
linguagem singular de uma criança, sua forma de lidar com emoções complexas.
Bem, eu achei genial.
Peter Pan tinha medo de crescer. Hoje entendo que não
existia garoto mais esperto que ele. O que há de bom em crescer? Por que não
morar para sempre na Terra do Nunca? Por que não desejar aventuras sem fim com
o Capitão Gancho? Espera. Por que eu não consigo voar? Pensamentos positivos,
pensamentos positivos, Peter Pan me diz enquanto joga mais pó mágico. Nem um
centímetro acima. Sem pensamentos positivos, eu já cresci.
Chapeuzinho vermelho era uma rebelde por natureza. Disse “sim”
à ordem da mãe, mas bastou uma pequena distração e já estava em seu próprio
caminho. O mais perigoso, é verdade. Encontrou um estranho e conversou com ele,
outra desobediência. E coincidentemente, o mesmo desconhecido era o temido lobo
mau, cujos dentes afiados atacaram sua avó. Chapeuzinho jamais deixaria isso
acontecer. Inconsequente, tomou riscos e aprendeu lições, colocou pessoas que
ama em perigo e as salvou. Afinal, não é isso que significa amadurecer?
Tiana, a primeira princesa negra. Na famosa cidade de New
Orleans, ela se mostrou parte Cinderela enquanto trabalhava arduamente servindo
os típicos e meus sonhos de consumo Beignets. Com café, por favor. Ela também
foi parte Ratatouille (além da culinária), se transformou em um animal que as
pessoas não costumam sentir muita empatia e ainda assim conquistou o público.
Mas ela foi, acima de tudo, forte. Admiradora do pai, manteve-se firme aos seus
valores e não cedeu ao Dr. Facilier, um feiticeiro bem bizarro, quando ele
tentou lhe seduzir com a realização de seu maior sonho em troca do talismã. Ela
disse não e, com a ajuda dos amigos, construiu seu restaurante com as próprias
mãos. Tiana quer tirar da mente das meninas que esperar na sacada realizará desejos,
não adianta o vestido mais bonito se não houver determinação. Tanto para aceitar
o trabalho e as unhas quebradas, quanto para negar os atalhos que agora parecem
tentadores, mas depois voltam para assombrar.
Frozen e Malévola são as mostras claras de que príncipes são
bem vindos, mas não necessários. Romance, é verdade, embeleza uma história. Independente
do ceticismo, um beijo romântico sempre arrecada suspiros. Contudo, finais
felizes não dependem deles. Se é amor verdadeiro, por que não família?
Namorados vêm e vão, irmãs permanecem até quando você não acorda com os
pássaros cantando e o cabelo perfeito. Como a Anna, meu sono é precioso,
acordar de madrugada unicamente para brincar na neve com minha irmã super
poderosa.
Talvez, quando criança eu não tivesse entendido tudo o que
hoje compreendo. Contos de fadas são sim infantis, mas não menos verdadeiros.
Sou adulta hoje, embora ainda expresse meus complexos sentimentos através de
personagens. Não mais lobos maus e princesas, infelizmente. Crio meus próprios
vilões e mocinhas, menos bem vestidas e mais Meridas e Tianas, um pouco
angustiadas como a Elsa, um pouco apreciadoras de bibliotecas como a Bela, um
pouco perdidas como a Ariel, um pouco insanas como a Alice. É hora de crescer sim, mas ser “grande demais” não
é desculpa para se contentar com realidades pequenas.
Thais T.
Nenhum comentário:
Postar um comentário