Verbos do gênero feminino
Não, ela não era quebrada. Ela quebrava.
Os cabelos estavam perfeitamente domados
pela tiara florida, o corpo devidamente escondido pelas roupas comuns, o rosto
inocentemente límpido. Ainda não ao ponto de ser canonizada, mas progredindo para
esse título, ela sorria.
Sentada em seu devido lugar, a postura correta na mesa enquanto seus pais
conversavam sobre política com os convidados. Mais clichê? Impossível. Com discrição, olhou para o relógio antigo
na parede, tiquetaqueando mais uma hora de sua presença no jantar. Ao lado, a
esposa de um amigo de seu pai decidiu que uma conversa entre elas seria uma boa
ideia. Embora as perguntas fossem entediantes, seu sorriso jamais vacilou. As
respostas desenvolvidas para agradar.
Uma hora. Boa noite, ela se retirou
da mesa sob o olhar aprovador de seus pais. Hora
dos adultos, eles diziam. Ela sorria, o que mais faria? Estava satisfeita
que eles não soubessem o quão adulta ela já era, o quão mais experiente sobre a
vida fora da redoma de ouro.
Com passos delicados, entrou no seu quarto. Retirou a tiara, as roupas, o
sorriso inocente. Despiu-se da santidade, dos olhos azuis límpidos. Dobrou a
pureza e a guardou no armário. O sorriso mudara, sem dúvida. Na gaveta da
direita, estava o “singelo” usado no jantar. Fechada e trancada por hoje. Na
esquerda, estava o “presunçoso”. Aberta e vazia quando o sorriso foi colocado.
Os cabelos estavam imperfeitamente
selvagens, o corpo devidamente a mostra pelas roupas rasgadas, o rosto
obscenamente incompreensível. Ainda não ao ponto de ser escandalizada, mas
progredindo para esse título, ela sorria.
Sem nada a esconder, saiu pela porta da frente. Os pais e os convidados focados
em demasia em sua conversa superficial para a notarem. Sem demora, acendeu um
cigarro no caminho, fascinada com o exalar de sua alma pela fumaça. Bateu na
porta, sendo convidada para dentro por uma garota seminua. Cumprimentou poucos
amigos, rindo internamente de seus olhos vermelhos com a quantidade de droga
consumida. Ela gostava de estar no comando, álcool e drogas arrancavam sua
consciência e, logo, seu controle. No entanto, filha do casal que no exato segundo tomava uísque sem pausa, seu corpo aguentava
mais bebida que metade dos embriagados dessa festa. Cerveja em mãos, cigarro
entre os lábios. Ela dançou, os corpos suados se misturando; ela jogou strip
poker, por que não?
Seis da manhã. Pessoas adormecidas distribuídas pelo chão e incontáveis
garrafas em cada mobília. Ela passou pela porta da frente, o batom vermelho
ainda impecável. Sóbria e consciente, olhou para trás antes de entrar no carro.
Mais clichê? Impossível.
O som ressoando sua música favorita no último volume, outro cigarro sendo
tragado, ela dirigiu para casa. Não a residência que seus pais possuíam, não
uma festa que só sairia no dia seguinte. Não. Ela estacionou na frente de uma
cabana abandonada, escondida pelas árvores da encosta. Camuflada para não ser
vista, mas o suficiente para ver. Sentada na escada frontal, ela observou o
nascer do sol. Ali, ela não era ninguém. Embora amasse atuar suas facetas
opostas - tanto a filha obediente, quanto a garota rebelde -, elas eram
exatamente isso. Papéis. Atuações. Farsas. Ser querida e comportada lhe
concedia regalias e aprovação, ser impura e manchada destruía qualquer
expectativa que pudessem ter sobre ela.
Ela não era completamente sã, como seus pais acreditavam. Ela não era
radicalmente insana, como seus colegas de festa pensavam. Ela não era nada. E
exatamente por isso, em vez de quebrada, era ela quem quebrava. As regras, os
estereótipos, a sociedade. Jogar para os dois lados, sem de fato torcer por
nenhum, era sua diversão. Quebrar, contudo, era sua paixão. Solitária, como
qualquer atriz permanente deve ser, permanecia inteira enquanto todos ao seu
redor eram ludibriados por suas incessantes colisões. Eles não a conheciam, mas
ela sabia do que era capaz.
Thais T.