Verdade seja dita. Ninguém tem o direito.
Quando a mulher de maquiagem pesada e pele exposta em
demasia passa ao seu lado, ninguém lhe deu o direito de chamá-la por um nome
depreciativo.
Obviamente, o que ocorre na sua mente, é isso. Apenas seu.
Mas no momento que as palavras saem da sua boca para o ouvido de alguém, seu
direito terminou.
Você poderia, talvez. Se abrisse a bolsa e, de dentro,
tirasse uma pasta. Páginas e páginas a serem analisadas. A história dela. As
memórias, os medos, os sonhos. Você sabia que ela sofreu abuso quando criança?
Sabia que fugiu de casa? Sabia que a maquiagem não passava de uma máscara? E as
roupas? Elas desviam a atenção dos demônios.
Do outro lado, um homem. Um dragão serpenteava pelo braço,
uma carpa nadava na perna, uma armadura montada no ombro. Tatuagens cobriam
parte do corpo visível. Um, dois, três piercings. A calça meio rasgada, a
camisa de uma banda estranha. Você mexe na bolsa, mais uma pasta. Sabia que ele
é um neurocirurgião? Formado com honra. Você sabia que ele namora a mesma
mulher há quatro anos? Ela é uma psicóloga bem sucedida. Sabia que foi
exatamente esse homem, o mesmo que você chamou de criminoso na cabeça, que lhe
atendeu no consultório semana passada? São aquelas mãos tatuadas que irão operar
o tumor da sua filha. Vê? O mesmo sorriso que lhe passou confiança, a mesma
competência que lhe assegurou sucesso na cirurgia.
Mais a frente, um artista. Você percebe o estilo diferente
das roupas, assim como os respingos de tinta. O que você não percebe, no
entanto, é a expressão atormentada. Antes de chamá-lo de desocupado, outra
pasta é aberta. Sabia que ele é formado em arte por uma das faculdades mais
renomadas? Mas ainda assim, ele não consegue vender seus quadros. Porque
pessoas como você, não se importam com a arte que ele carrega na alma. Sabia
que o tormento é porque seu irmão menor está com fome? Ele também. Não, o irmão
vem em primeiro lugar. Você sabia que ele trabalha como garçom em dois lugares
antes de voltar para casa e tentar se manter acordado para expressar sua angústia
nos quadros? Antes de guardar as páginas, olhe bem para ele. O talento em baixo
do casaco respingado é algo que você nunca terá e, aparentemente, nunca verá. Pelo
modo como a fome o corrói, ele vai desistir dos pincéis em breve.
Atrás, uma adolescente. Os livros pesados agarrados ao seu
corpo, quase como um escudo. A calça é larga demais para a estatura de seu
corpo, a blusa retira todas as curvas que poderiam existir. Aqueles óculos
aumentam levemente os olhos, os cabelos voam incessantes em seu rosto abaixado.
Rata de biblioteca, nerd antissocial.
Vive no mundo dos livros, não sabe nada sobre a vida. Coitada, é uma sonhadora.
Você sorri com suas suposições, certa de que estão todas corretas. Para
assegurar sua vitória, abre a pasta. Bem, talvez não tão correta. Lembra dela?
Aquela garota com o vestido vermelho que você amou, no bar perto da sua casa? Ela
estava rindo, contando aos amigos como ela e o namorado se conheceram na
livraria. Não se lembra dela? Mas ela estava na mesma mostra de cinema que você
foi mês passado, com um crachá ao redor do pescoço. Assistente do organizador.
Ela quer estagiar para a empresa quando começar a faculdade de cinema. Pelo
olhar orgulhoso do homem responsável pelo evento e os elogios que ele depois
diria aos seus superiores, não havia dúvida que sua vaga já estava segura. Você
sabia que ela é a irmã mais velha de quatro crianças? E que a mãe nunca está em
casa, ocupada com seus próprios casos amorosos? O pai? Foi embora assim que ela
nasceu. A família é sua responsabilidade, ela deixou de ser uma adolescente há
muito tempo. E mesmo com uma gigante bagagem nos braços, ela estava no bar,
sorrindo. Ela estava na mostra, conseguindo seu futuro emprego. Ela sabe mais
sobre a vida do que você, e ainda assim, ela sonha.
Quatro pastas analisadas. Qual sua conclusão? Ainda acha que
sabe julgá-los? Suas suposições estavam certas?
Sim? Bem, verdade seja dita. Não tenho sua pasta. Nem a de
ninguém. Você continua a olhar ao redor e supor sobre vidas que não tem o menor
conhecimento. Faça o que quiser. Amanhã, você observará as lágrimas da mulher
maquiada, sua filha será operada pelo homem tatuado, você será atendida pelo
artista vestido de garçom e verá no cinema o filme dirigido pela garota
sonhadora. Eles são muito mais que julgamentos falsos. Mas veja, quem sou eu
para julgá-la?
Thais T.
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