Os olhos fechados, excluindo o
mundo de sua visão escurecida. Ela colocou o braço sobre o rosto, sem nem
perceber que embora significasse sua imobilidade de atitude, também
correspondia a sua defesa automática. Mesmo na divisão tênue entre o sono e a
realidade, ela se protegia.
A cama era confortável, os
travesseiros gigantescos acolhiam seu corpo, os lençóis a convidavam. Não.
Havia certo incômodo que não a deixava descansar por completo. Uma pontada na
nuca, uma ardência nas pálpebras fechadas, um peso a mais na garganta. Não
compreendia, havia feito tudo o que sempre fazia. Ela tomou água, fechou a
janela, desligou a luz e se acomodou na cama. O suéter que usava como pijama
era o seu favorito, desbotado por uso contínuo. Não entendia. Todo dia, ela
deitava e desvanecia. Simples assim. Em um segundo, sua realidade mudava de
eixo. Hoje, no entanto, nada que fazia era capaz de melhorar o desconforto.
Então, uma gota de suor brotou da
sua testa, tomando-a de surpresa. O quarto era programado para a temperatura
ideal, sem calafrios, sem calor. Por um momento, esqueceu sua posição e retirou
o braço do campo de visão, procurando o motivo da pequena alteração. Ali, bem
do seu lado na cama larga, um feixe de luz invadia o espaço. Que descuido. Uma
fresta da janela não fora fechada como deveria, onde ela estava com a cabeça.
Espera. Já era manhã? Mas ela acabara de se deitar, não havia conseguido entrar
na inconsciência por um minuto se quer. Não, não. Isso mudaria seu dia inteiro,
não estava nos planos, não encaixaria na sua agenda. Ela precisava de exatas 8
horas de sono para se sentir disposta no dia seguinte, agora sua exatidão
desaparecera.
Com pensamentos acelerados, ela
tentava planejar uma rota de fuga. Talvez com bastante café, conseguisse
aguentar o dia. Talvez se dormisse por meia hora antes de voltar ao trabalho a
tarde, o cansaço fosse mais gentil com seu corpo. Não estava nos planos, droga.
Mas o que? Assim como o horário
no relógio de cabeceira, a luz estreita ao seu lado não esperava por ela,
avançando e invadindo seu espaço pessoal. Tocou seus cabelos por primeiro.
Loiros. Não, dourados. Ela nunca tinha percebido como eles brilhavam sob o foco
da luz, quase como nos contos de fada que lia quando criança. Alcançou seu
braço por segundo. A pele pálida quase translúcida ao ser posta na intensidade
solar, expondo uma teia de vasos, os mesmos que bombeavam seu sangue, os mesmos
que a mantinham viva. Atingiu seu suéter por terceiro. Conseguiu ver os fios se
desfazendo, como se o feixe de luz fosse uma lupa para detalhes que ela nunca
foi capaz de perceber. O tecido já estava além de velho, estava rotineiro,
monocromático, entediante.
E por último, iluminou seu rosto.
Que sensação estranha. Ela detestava o frio, mas ansiava pelas sombras. Não
gostava de ter que estreitar os olhos para ver sob o sol, não gostava de usar
menos roupas, não gostava de ser vista facilmente. Então por que relaxou diante
do rosto iluminado?
Devagar, a luz foi caminhando
pelos seus traços. Os olhos, a testa, o nariz, a boca. Um por um, clareados de
volta aos seus sentidos. Não era tão ruim assim. Na verdade, não era ruim de
forma alguma. Por todos esses anos, tinha esquecido o calor da pele. Acostumada
como estava aos suéteres antigos e a temperaturas ideais, deixou que sua
exatidão engolisse os feixes de luz.
Meu deus, ela lembrou, é a mesma
sensação da praia grega que fui aos 16 anos. Tinha muita juventude no bolso e
pouco protetor solar compartilhado entre 3 amigas, mas sorriu ao recordar da
senhora que recomendou um creme feito de produtos locais que ajudava com a
ardência da pele rosada demais.
Ou daquela outra vez, ela
percebeu, que fizera uma viagem solo para o Oriente Médio. O calor parecia
queimar todo centímetro descoberto e coberto a cada segundo, mas enquanto
caminhava pelas ruas de culturas fixas, ambulantes, transitórias, tradicionais,
centenárias e modernas, nada parecia importar. Ela voltou com mochilas
transbordando singularidades e uma memória que na época aparecia no topo da sua
lista, mas que agora era difícil recuperar.
O que aconteceu? Ela se sentiu
presa à cama, ao relógio de cabeceira, as exatas 8 horas, aos planos. Não
culpava a rotina, não. O dia a dia é necessário para sobreviver. Mas em que
momento ela deixou de viver?
Com um suspiro, levantou o torso
para retirar o suéter, jogando-o em qualquer lugar do quarto. Voltou a se
deitar, o corpo exposto à luz, mais intensa conforme as horas passavam. O braço
automaticamente se colocou sobre seu rosto, obstruindo parte de sua face para o
sol. Pequenos passos. Não o retirou de lá, mas o moveu
para que liberasse seus olhos. Abertos. Olhou para a janela, o brilho ofuscou
sua visão. Pequenos passos. Um pingo de suor escorreu pelo seu pescoço, ela não
se moveu. Chutou o cobertor para fora da cama, se acomodou nos lençóis. Talvez
dormisse agora, talvez tomasse café, talvez permanecesse acordada. Pequenos
passos. Ela entendeu qual era o incômodo de antes, sorriu e não fechou os
olhos.
Thais T.
Foto escolhida por Thais T.
Foto escolhida por Thais T.

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