domingo, 15 de abril de 2012

Ruína (parte 1)


O ar elegante e rústico não provocou a reação que ela ansiara há anos. As exuberantes paisagens e os admiráveis pontos turísticos não fomentaram nela qualquer conforto diante de tal espetáculo. Londres sempre fora seu sonho. Cada centímetro parecia mais mágico comparado a qualquer outra cidade, embora seu histórico de viagens fosse mínimo.

Scarlet buscava em si o sorriso que perdera há muito tempo, sem sucesso, contudo, deixou-se levar pelo semblante entristecido já tão usual. Ela era uma bela mulher, assim como fora uma esplêndida garota na adolescência, o tempo, no entanto, fez o favor de fixar em seu rosto, marcas que nenhuma maquiagem seria capaz de ocultar. Sendo ainda jovem, não se tratava de sinais de envelhecimento, mas de amargura. Ela jamais poderia esquecer as chances que passaram à sua frente e por tolice, deixou de agarrar.

Scarlet Evan possuía cada característica para ter um futuro promissor. Bonita, talentosa e esperta. Não inteligente, era preciso algumas horas a mais de estudo caso quisesse se graduar, independente disso, porém, suas habilidades atléticas a elevavam como uma promessa para as grandes faculdades.  Líder de torcida, capitã de inúmeros times, atleta nata. Popular, pertencente a uma família de classe média que costumava comprar mais do que podia para ostentar um status que não lhes pertencia. Ela era a rainha, e como tal, era seu dever selecionar os que mereciam sua amizade e os que eram dignos apenas de seu desprezo.

As expectativas em cima de seu destino, entretanto, ruíram assim que escolhas erradas começaram a ser tomadas. Scarlet achava que já havia traçado o começo de seu caminho brilhante por ser quem era. Esse foi seu maior erro. Ela se deixou cegar pelos anos de glória do ensino médio e não ponderou suas ações.

Primeiro, envolveu-se com as pessoas erradas. James, seu namorado na época, era o charmoso rebelde, cuja aparência sensual e atitudes ousadas o elegeram igualmente como o centro das atenções. Eles formavam um casal completo, dotados de beleza e de extrema intrepidez, ambos pressagiavam futuros carregados de sucesso.

Mas então, passou a dar tão pouca importância aos estudos e aos requisitos para a universidade que suas notas decaíram em uma velocidade aterrorizante. Passava poucas noites em casa, devido às festas insanas que comparecia e às drogas que há pouco tempo começara a usar por influência do namorado. A mais jovem Evan passara tanto tempo declamando com a mais pura certeza sobre seus planos de riqueza e fama, que afinal acabara por se esquecer de persegui-los.

Hoje, todavia, a realidade se diverge tão nitidamente desse sonho antigo que os enfadados olhos azuis quase sucumbiram às lágrimas. Scarlet enfim aprendeu que a beleza – por mais que ainda a possua – é passageira, assim como o restante das frivolidades que costumava valorizar. Ela nunca foi admitida em nenhuma faculdade, e por isso, fora obrigada a trabalhar cedo em empregos de baixa remuneração. Não obteve nenhum sucesso por suas habilidades atléticas e após a formatura, os amigos pareceram sumir com uma agilidade surpreendente. James continuava ali, agora seu esposo, entretanto, as marcas arroxeadas em seu braço e pescoço – devidamente cobertas por uma blusa de gola alta – mostravam o quão desgostoso ele também estava pela vida medíocre que levavam. E logo, a cada dia, ela se via chorando enquanto escutava os gritos enraivecidos do marido a culpando pelos insucessos de ambos; pelo filho indesejado em seu ventre.

Scarlet suspirou, magoada pelas lembranças do que lhe esperava em casa assim que voltasse de Londres, viagem essa que investiu cada dólar de sua secreta economia como seu próprio presente de aniversário, tendo informado a James uma fictícia visita a mãe com quem não tinha contato há anos. Seus pais se divorciaram imediatamente após ter sua maioridade completa e seguiram suas vidas distantes dela, decepcionados com a infrutífera história da filha.

(...)

Thais T.

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