A mudança era lenta, perigosa. Sem a devida atenção, ninguém poderia notar que o fogo estava desaparecendo. E o gelo, com sua frieza lancinante, impunha presença.
Os acontecimentos se desenrolaram suficientemente rápido para que eu não percebesse de imediato, mas então, após um tempo de relativa paciência, compreendi que aquele vazio estava se tornando permanente. E como consequência, o meu vazio passou a ser preenchido por um ressentimento doloroso.
Cinco meses. Cinco meses sem ele.
Esse era um período curto, na realidade, em comparação ao que estava por vir. E a imagem desse futuro forçou uma última lágrima a escorrer por meu rosto, deixando um rastro tão desprezível como meu interior.
Então, com uma nova lufada de ar nos pulmões, limpei os resquícios de um choro silencioso e retornei para a “reunião das garotas”. O movimento estava calmo no restaurante que Jéssica Lewis escolheu, nos favorecendo com a constante atenção dos garçons e um especial requinte em nossos pedidos. Eu estava, no entanto, em uma árdua batalha para evitar qualquer atenção que pudesse se voltar para mim, seja o zelo dos atendentes ou a curiosidade das mulheres. Essa última, contudo, estava se tornando quase impossível.
“Rachel, querida, nos conte mais sobre você. Não nos vemos há muito tempo.” Ouvi Jéssica dizer, o interesse por novas informações explícito em sua voz.
Um pequeno sorriso retribuiu seu entusiasmo enquanto eu me punha a comentar sobre as amenidades da minha vida, obviamente não satisfazendo sua sede por fofoca. Pude, todavia, notar o brilho animado em seu olhar quando falei de modo breve sobre meu marido.
“E ele viaja bastante, não é?” ela questionou.
Assenti relutante, desgostosa em revelar sobre isso. Mas assim como fora seu convite para essa saída, Jéssica tem a mania de forçar uma resposta para suas perguntas. E geralmente, uma que seja de seu gosto.
Eu sabia, contudo, o motivo de seu evidente interesse na vida do meu marido. Ele possuía as três características que ela mais prezava em um homem. Muito dinheiro, colossal beleza e um casamento. David era um milionário empresário, dono de uma aparência divina e casado. E Jéssica, já no terceiro relacionamento com um homem endinheirado, era o estilo de mulher que tinha o doentio hábito em passar de amante à esposa, apenas pelo prazer de ser a razão de uma separação em que ela é a nova escolhida. Desde a primeira vez que nos encontramos em um evento beneficente e ela pousou os olhos ambiciosos em David, eu soube o que ela desejava. Isso, todavia, nunca me preocupou. A minha escolha por ele não foi em vão, a fidelidade é um principio que ambos compartilhamos.
Assim como era o amor, lembrei a mim mesma.
Nenhuma das faces maquiadas que me observavam nesse momento, no entanto, entenderia a dor que se expandia. Elas alegariam que as constantes viagens que ele fazia não mudariam nada, com exceção da conta bancária, logo, o aumento desses números seria o suficiente para satisfazê-las pela distância. Mas não a mim. Elas não compreenderiam que uma das piores sensações existentes era a saudade. Não uma unha quebrada. Elas não veriam, portanto, o gelo. O frio entre um casal que antes se amava com ardor. E era exatamente isso que me machucava: a nossa perda.
Cansada dessa reunião e do rumo que a conversa tomava, esperei que uma delas comentasse algo que me tirasse dos holofotes e pedi desculpas pela minha saída antecipada, em decorrência de um processo de última hora que estava em minha responsabilidade. O trabalho existia, mas o fato de não haver nenhuma pendência por hoje, contudo, eu deixei de comentar. O certo prestígio que seguia meu nome como advogada pareceu convencê-las, apesar dos protestos para que eu ficasse e prosseguisse com os relatos da minha vida de casada.
Então, certa de que o manobrista já saíra em busca de meu carro, deixei uma nota de cem dólares com o gerente, solicitando que contabilizasse como minha parte da conta, embora tudo o que eu tenha consumido fora apenas um cosmo. Após uma breve despedida e a recusa de mais um encontro de garotas por causa de um compromisso recém-inventado, caminhei em passos apressados até meu Aston Martin, partindo em velocidade alta.
No caminho, entretanto, não pude impedir minha mente de viajar pelo passado. Pelos sorrisos e olhares. Pela paixão. Recordei a faculdade, o exato momento que nos trombamos no prédio de direito, de como eu estava resplandecente pelo primeiro mês em Harvard. Libertei as lembranças dos anos seguintes, da força do nosso relacionamento, ambos experientes com frustrações amorosas e inexperientes com o novo sentimento que faiscava entre nós. Lembrei do nosso casamento, o dia que evocou em mim os antigos sonhos adolescentes sobre príncipes e contos-de-fadas, o dia que quase acreditei em finais felizes. Uma por uma, as memórias da lua-de-mel, o júbilo do primeiro ano e a cumplicidade do segundo explodiram diante dos meus olhos. Logo, o terceiro e atual começou a transbordar em forma de lágrimas.
Um ano depois do casamento, retomamos todos os compromissos que antes havíamos abdicado para melhor proveito dos primeiros doze meses como um casal oficial. E a cumplicidade proveio da compreensão de ambas as partes em relação aos compromissos constantes, às viagens repentinas. O entendimento mútuo apenas intensificou o amor e os reencontros eram sempre calorosos, repletos dos mais apaixonados beijos e das lembranças mais vívidas.
Com o passar do tempo, no entanto, alcancei meu maior desejo como profissional: o renome no mundo da advocacia, e consequentemente pude me estabilizar na cidade. Os clientes que eu antes viajava para encontrar, passaram a vir até mim. As reuniões continuaram frequentes, mas meu tempo em casa se estendeu. Portanto, no final do dia, eu voltava. Ele não. O lugar, antes tão aconchegante apesar de gigantesco, parecia ainda maior, exclamando insistentemente que apenas uma pessoa não conseguia suprir o vazio de uma mansão daquele tamanho. E então, ao amanhecer, eu acordava na nossa cama. Ele não. Os lençóis, antes tão quentes e convidativos, pareceram congelar diante da falta de uma parte essencial do casal. No decorrer dos meses, eu simplesmente me deparava com a solidão. Em uma casa imensa, uma cama vazia, refeições solitárias e fins de semana entediantes.
Porque embora assim como eu, tenha obtido seu reconhecimento ainda jovem, o prestígio dele não o consolidou em cidade nenhuma, levou-o, na verdade, a atravessar o mundo em busca de bons investimentos. E as viagens de uma semana, devagar, prolongaram-se para “indeterminadas”.
Quando eu me dei conta, a saudade que se tornara o combustível dos recém-casados, transformou-se no veneno que os destruía. A distância se impunha de maneira poderosa, o suficiente para nos tornar quase simples conhecidos morando – brevemente – sob o mesmo teto. E a dor mais lancinante era intangível: eu ainda o amava. Loucamente. Tanto quanto da primeira vez que o vi, da primeira vez que o beijei, da primeira vez que nos amamos.
Eram incessáveis as lágrimas que deslizavam pela minha pele assim que eu desliguei o motor na garagem, saindo do carro cambaleante. E por mais que minha respiração estivesse desregulada, meus passos instáveis e minha visão turva pelo choro, tive a capacidade de vislumbrar as luzes ligadas. Nenhum funcionário estaria na sala de estar agora, nenhuma visita viria sem avisar. Só me restava uma opção. David estava de volta.
Thais T.
Nenhum comentário:
Postar um comentário